quarta-feira, 29 de outubro de 2008

CIA. DO MIOLO

Histórico

A Companhia do Miolo inicia sua pesquisa em Teatro Popular em 2000 com o Espetáculo "O Casamento Suspeitoso" de Ariano Suassuna. Em 2002 leva para as ruas de São Paulo, "O Burguês Fidalgo” de Moliére com direção de Bete Dorgam, realizando mais de 120 apresentações na temporada. Em 2003, dando continuidade ao repertório do autor francês, a Companhia amplia seu trabalho e realiza a montagem “O Doente Imaginário”. Este Espetáculo dá inicio a uma nova trajetória de pesquisa, pois a partir dessa montagem, a Diretora Cuca Bolaffi integra permanentemente o repertório da Companhia, contribuindo com sua experiência e aprofundando o estudo da linguagem corporal para a rua. "O Doente Imaginário" chega em Outrubro/2004 ao público paulista, realizando temporada nos CEUS, SESCs e Festivais.
Em 2005, a Companhia inicia uma pesquisa sobre brincadeiras e canções infantis das décadas de 20, 30 e 40 com a Antropóloga Daisy Perelmutter, resultando dessa experiência a montagem do Espetáculo Infantil “É de Cantar e de Brincar”. O trabalho estréia em Out/2005 e agrada a crianças e adultos, que relembram suas brincadeiras da infância e reconhecem ali um apurado repertório de poemas e canções. Desde sua estréia O Espetáculo já realizou mais de 50 apresentações em sua temporada, sempre com grande sucesso de público. Este trabalho estimulou ainda a companhia a reencontrar a memória da cidade, mote de seu próximo Espetáculo, que tem estréia prevista para o segundo semestre de 2006, Projeto contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro na cidade de São Paulo, que recria as ruas da velha cidade. A Companhia do Miolo é hoje referência em pesquisa teatral de Rua, tendo no trabalho do ator e na sua relação com o público, sua principal fonte de pesquisa e excelência artística.

CIA. DO FEIJÃO

Histórico

A criação em equipe, encabeçada pela dupla de diretores Pedro Pires e Zernesto Pessoa, investe em pesquisa de campo e documentos históricos. Temas e personagens içados da literatura brasileira ajudam a interpelar criticamente o passado e o presente, enquanto interpretação e dramaturgia adotam como referência os recursos do ator-narrador.

O grupo nasce por ocasião das comemorações do centenário de nascimento de Bertolt Brecht, em 1998 e estréia em Piracicaba, São Paulo, com a peça O Julgamento do Filhote do Elefante. Com uma trajetória pautada pela inclusão cultural em todos os níveis; espetáculos são levados a públicos e lugares os mais diversos.

O segundo espetáculo, Movido a Feijão, também de 1998, estréia nas ruas de Cordisburgo, a cidade natal do escritor João Guimarães Rosa, no interior de Minas Gerais, indício da impregnação pela literatura.

A montagem seguinte, O Ó da Viagem, 1999, toma como inspiração O Turista Aprendiz, livro que reúne os diários de viagem de Mário de Andrade pelo Norte e Nordeste brasileiros. A dramaturgia inclui experiência da própria turnê da companhia pelo Sertão do Cariri, na Paraíba e Pernambuco. Os intérpretes são viajantes-narradores paulistas que observam com olhos de "estrangeiros" o universo sertanejo.

Para a crítica Mariangela Alves de Lima, a companhia apresenta "uma caderneta de campo em forma de espetáculo" ao reaproximar regiões do país. "Na sua austeridade melódica e rítmica, as músicas do espetáculo nos lembram que há uma outra possibilidade estética, a do rigor construtivo e da economia", afirma.

É comum aos atores o desdobramento em múltiplas personagens. Os projetos põem em relevo as linguagens do canto e do teatro populares, e alternam entre o trágico e o cômico. Além de firmar tais passos, Mire Veja, 2003, instaura a vida urbana no repertório. A montagem que transpõe para a cena histórias do contista Luiz Ruffato é contemplada pelos Prêmios Shell e Associação Paulista dos Críticos de Artes - APCA, consolidando o nome da companhia.

A linguagem teatral é ampliada com a experiência de rua Reis de Fumaça, 2004, que funde danças dramáticas, poesia e músicas populares para tratar da escravidão no Brasil. Extrai do cotidiano dos brincantes um abismo entre a dura realidade da sobrevivência e a alegria contrastante do jogo.

Contra-sensos sociais na formação do país surgem de modo mais veemente em Nonada, 2006, quando a companhia inaugura sua sede ao lado do Teatro de Arena, no centro de São Paulo. Entrelaça personagens de Mário de Andrade - espécie de bússola da companhia -, Machado de Assis, Clarice Lispector e outros. O desejo é pôr em xeque o processo conservador de modernização do país.

Sobre Nonada, o crítico Kil Abreu comenta: "Nessa arqueologia de sujeitos incertos - uma velha que perambula, morando de favor de casa em casa; uma dondoca surpreendida por um mendigo -, o espetáculo vai aos poucos puxar os fios de seu tema subliminar: o de um lugar sem nenhuma saída, onde se representa a repetição ad infinitum das experiências histórias. (...) Um olhar necessário para perceber as imagens de uma memória do luto, por um país que só se reconhece no erro. Quando muito na renovação das mesmas falhas, travestidas de esperança oca, sem projeto de mudança verdadeira".

CIA. DO LATÃO

PESQUISA EM TEATRO DIALÉTICO

A Companhia do Latão é um grupo teatral de São Paulo que desenvolve desde julho de 1997 uma pesquisa artística voltado para a reflexão crítica sobre a sociedade atual. Esse trabalho inclui a encenação de espetáculos, a edição da revista Vintém bem como uma série de experimentos cênicos, musicais e teorizantes.

A origem do grupo está ligada à ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet da Funarte em São Paulo, entre 1997 e 1998, quando se consolida seu estudo da obra de Bertolt Brecht como um modelo para o teatro épico-dialético no Brasil. Desde então, o grupo produz dramaturgia própria, interessada na realidade histórica do país bem como na crítica política das formas estéticas de representação. Suas montagens são "peças-processo" sobre movimentos contraditórios de uma sociedade imersa nas determinações do capitalismo mundial.

Foto: Lenise Pinheiro O caráter processual faz com que cada espetáculo da Companhia do Latão não se insira no sistema produtivo como um "produto acabado", mas antes como matéria formativa, em constante transformação, aberta à interferência crítica do público. Os espetáculos da Companhia do Latão procuram evidenciar sua construção por um jogo teatral claro, com regras expostas. Trabalham com a relação direta entre atores e público, de uma forma anti-ilusionista, desprovida de maiores efeitos cenográficos. O espaço da ficção depende da colaboração imaginária do espectador, é construído como experiência compartilhada.

Os primeiros trabalhos do coletivo teatral Companhia do Latão foram adaptações de obras de Brecht. O conjunto de textos teóricos de A Compra do Latão deu origem ao espetáculo Ensaio sobre o Latão (1997). E o texto Santa Joana dos Matadouros recebeu uma encenação livre, em parte itinerante pelo espaço teatral. Foram projetos que deram seqüência a uma pesquisa iniciada em 1996 com a montagem de A Morte de Danton de Büchner, na livre versão intitulada Ensaio para Danton, que, dirigida por Sérgio de Carvalho, aproximou alguns dos artistas que formariam o grupo no ano seguinte.

O primeiro trabalho inteiramente autoral, feito com base no método de dramaturgia coletiva da Companhia do Latão, foi O Nome do Sujeito, texto de 1998, com versão final dos diretores e dramaturgos Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano, e publicado no ano seguinte. Esse trabalho, feito a partir de improvisações, abriu caminho para a produção de uma escrita épico-dialético contemporânea, do ponto de vista de uma crítica aos modos de operação violentos do capitalismo na periferia da globalização econômica. Essa coletivização da escrita assumiu caminhos muito radicais no espetáculo seguinte, A Comédia do Trabalho, que estreou no ano 2000. Na medida em que procura trabalhar suas construções teatrais na perspectiva da crítica à mercantilização da cultura e da transformação da sociedade, a Companhia do Latão atraiu o interesse de diversos grupos politizados do país e passou a realizar, desde 1999, intercâmbios com platéias ligadas a movimentos sociais organizados, como o MST, sindicatos, frentes estudantis, além de dialogar com cientistas políticos ligados à universidade. Entre 2001 e 2003 o grupo ocupou o Teatro Cacilda Becker, no Bairro da Lapa, em São Paulo, onde produziu mais espetáculos baseados em textos próprios, como Auto dos Bons Tratos e O Mercado do Gozo. Em 2004 apresenta Equívocos Colecionados, a partir da obra de Heiner Muller e Visões Siamesas, criação original épica inspirada vagamente num conto do escritor Machado de Assis. Em 2006, a Companhia, juntamente com artistas convidados, provenientes de vários grupos de pesquisa, encena O Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht. O trabalho da Companhia do Latão é uma mostra viva da possibilidade de utilização contemporânea do pensamento de Marx e Engels como ferramenta estética.

O SARRAFO

Editorial

Não são poucos os artistas brasileiros que se identificam suspirosos com a idéia de Borges segundo a qual os argentinos (entenda-se: nós,latino-americanos) são europeus no exílio. Se essa mentira idealista consegue se perpetuar, disfarçando seu caráter de classe, não é porque de fato a cultura dominante nos países da América Latina tinha sido, em grande parte, forjada pelos valores de uma racionalidade burguesa mal transplantada para a colônia, mas sobretudo porque as elites locais preferem qualquer coisa (inclusive a melancolia) a assumir a tarefa de produzir uma realidade menos perversa.
A enorme ignorância dos artistas brasileiros sobre as tentativas artísticas dos países pobres do continente é um sintoma inegável dessa tradição que só respeita os atos culturais importados a alto custo ou aqueles exportáveis para os grandes centros do capitalismo. Na universidade, na imprensa, nos palcos, nos debates, o teatro dos países da América Latina é pateticamente desprezado, e com ele um enorme
potencial crítico, que foi construído por gerações que viveram e vivem condições históricas muito semelhantes à nossa.
Se, nos últimos anos, o teatro de São Paulo construiu uma etapa nova a partir do trabalho dos grupos e da politização das práticas artísticas e produtivas, ainda nos falta acordar para a história, o que não é possível sem um diálogo vivo com nosso passado.

Cartas: ________________________________________________________________

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Somos La Compañía de Teatro en Harapos, de Bogota, Colombia. Nos gustaria hacer contacto con ustedes para generar cultura en todo latinoamerica, formado una Red de Trabajadores en contra de los medios de comunicación del mundo.
La Red consite en el intercambio de experiencias artisticas, puestas en escena, que comuniquen los trastornos sociales que sufre el mundo, generando consiencia del dia a dia que nos enceguece y nos manipula hasta enmanciparnos.
Adjuntamos nuestra informacion mas precisa de nuestra experiencia y de nuestras obras con las que participariamos en esta Red. Cualquier inquietud que genere este mensaje se puede comunicar con nosotros via e-mail:
enharapos2002@yahoo.es (Vladimir Duran M, director Cia de Teatro en Harapos, Bogota)
*
Longa e vibrante jornada editorial a O Sarrafo.
Será que a maldita crítica terá espaço para observar ou comentar atos e tendências do teatro? Contem
comigo. (Jefferson Del Rios, São Paulo)

* Só agora, no nº 8, tomei conhecimento do jornal e começo a me empolgar com os movimentos que acontecem
em Sampa. Vamos espalhar pelo Brasil, contem comigo aqui no Rio. (Paulo Garcia, Rio de Janeiro)
* O Sarrafo é muito bom, não só por abrir espaço na mídia ao teatro, mas também por veicular um conteúdo crítico tão necessário para mudarmos a cena em que vivemos. Este é meu último ano na faculdade de jornalismo e o escolhi como tema de meu Trabalho de Conclusão de Curso. (Fabiane
Espírito Santo, São Paulo)



SARRAFO um jornal pau-pra-toda-obra


Publicação independente produzida pelos grupos
Á gora, Arlequins, Canhoto Laboratório de Artes da Representação, Companhia Cênica Farândola Troupe, Companhia do Feijão, Companhia do Latão, Companhia Ocamorana de Pesquisas Teatrais, Companhia São Jorge de Variedades, Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, Domínio Público, Engenho, Folias, Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, Grupo XIX de Teatro, Parlapatões, Movimento de Teatro de Rua, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Tablado de Arruar, Teatro de Narradores.

CIA. ARTEHUMUS

A Companhia

Desde a sua formação no ABC paulista, a companhia desenvolve pesquisa que prioriza, sobretudo, a experimentação dramatúrgica. Assim, grande parte das montagens da companhia foi realizada com dramaturgia própria, assinada por Evill Rebouças: Explode seiva bruta (1987), No reino de Carícias (1990), Pingo pingado, papel pintado (1992), Dandara, o marinheiro (1995) e ainda as adaptações das peças de Qorpo Santo que resultaram nos espetáculos Um Qorpo Santo... mas nem tanto (1996) e As relações do Qorpo (2005).

Em 2000, alguns dos integrantes da companhia freqüentaram aulas na ELT – Escola Livre de Teatro de Santo André. Desse contato com Antonio Araújo e Luis Alberto de Abreu, passaram a investigar proposições dramatúrgicas que dialogassem com a carga histórica de determinados espaços públicos. Surgiu Evangelho para lei-gos – espetáculo apresentado em 2004 no banheiro público do Viaduto do Chá e vencedor do Prêmio VAI de Iniciativas Culturais da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Em 2005 a companhia é convidada a encenar parte da obra de Qorpo Santo na lanchonete e no elevador do Sesc Consolação por meio do Projeto Sesc Latinidades – Reflexos de Cena em Qorpo Santo. Nesse mesmo ano, foi selecionada para apresentar o espetáculo Campo de Trigo dentro da capela Nossa Senhora de Lourdes no Festival Internacional do Porto (Portugal).

Ainda em 2005, a companhia apresentou parte do seu repertório no Teatro Eugênio Kusnet por meio do Projeto de Ocupação do Arena 3 x 1: Um por (Todos)² por Hum!!!

Em 2006 elaborou o projeto Ateliê Compartilhado e recebe subsídios da Lei de Fomento para a montagem e pesquisa de Amada, mais conhecida como mulher e também chamada de Maria.

VAI

O Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais - VAI, foi criado pela lei 13.540/2003 (de autoria do vereador Nabil Bonduki) e regulamentado pelo decreto 43.823/2003, com a finalidade de apoiar financeiramente, por meio de subsídio, atividades artístico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda e de regiões do Município desprovidas de recursos e equipamentos culturais.
O Programa VAI tem por objetivos:
1. Estimular a criação, o acesso, a formação e a participação do pequeno produtor e criador no desenvolvimento cultural da cidade;
2. Promover a inclusão cultural;
3. Estimular dinâmicas culturais locais e a criação artística
nguagens
Uma das características do Programa é a diversidade de linguagens que abarca. Importante dizer que são raros os projetos em que há linguagens únicas, predominando a mescla de linguagens e intervenções. Há montagem, produção e apresentação de espetáculos e performances nas áreas de teatro, dança e música; há exibição e produção de vídeos e gravação de cds; oficinas ligadas às diversas linguagens artísticas, eventos culturais com manifestações de rua e em espaços fechados; há festivais, cultura indígena, cultura popular, capoeira, rádio, hip hop, produção e publicação de jornais, revistas e livros, saraus, contadores de histórias, biblioteca, videoteca, memória, formação de produtores culturais, cultura digital, desenho, entre outros.
Funcionamento do Programa e Papel da Equipe da Secretaria de Cultura
A seleção dos projetos é anual e inicia-se com a abertura do edital, seguida da entrega de projetos por parte dos interessados (na sede da Secretaria e em mais dez pontos de fácil acesso na cidade). Findo o prazo para entrega de projetos, que costuma ser no mês de janeiro, a Comissão de Avaliação e Propostas os analisa, atentando à atividade proposta, idade e perfil dos proponentes e o local de realização, pois há prioridade para jovens de baixa renda (entre 18 e 29 anos), não profissionais, bem como para as regiões do Município que são desprovidas de recursos e equipamentos culturais. A Comissão é composta por representantes do governo e da sociedade civil, indicados pelo Conselho Municipal de Cultura (hoje indicados pelo Secretário, dentre as entidades cadastradas pelo Conselho).
A equipe do Programa elabora o edital em conjunto com a Comissão de Avaliação, recebe inscrições, faz levantamento do perfil dos inscritos e assessora a Comissão em suas decisões. Após a seleção e a divulgação dos resultados, fica encarregada de efetivar as contratações e acompanhar o caminho trilhado por cada projeto, bem como supervisionar as despesas.
Os recursos são liberados em até três parcelas, sendo a primeira adiantada e as demais condicionadas a aprovação das prestações de contas, que incluem relatórios, demonstrativos de despesas, extratos bancários, notas fiscais e recibos. Por ocasião do recebimento da primeira parcela os grupos recebem um manual de orientações para prestação de contas e um treinamento quanto aos procedimentos.
Há reuniões mensais com a Comissão de Avaliação, que seleciona as propostas a serem subsidiadas e discute com a equipe do Programa sobre o seu desenvolvimento, além de aprovar as prestações de contas para liberação de recursos ou conclusão dos projetos.
A formação dos participantes na gestão dos projetos e dos recursos é considerada de grande importância para o VAI. Por essa razão, a equipe dá assessoria aos grupos desde a divulgação dos resultados, orientando-os quanto a eventuais necessidades de revisão do projeto e de composição de orçamento. Acompanha o seu desenvolvimento, identifica dificuldades e busca junto aos responsáveis as formas de superação. As orientações ocorrem na forma de reuniões gerais, atendimentos individuais e de grupo, visitas e articulação de intercâmbio de experiências.

CIA. DE TEATRO FABRICA SÃO PAULO

Histórico


A Cia. de Teatro Fábrica São Paulo trabalha, atualmente, fora da sede construída pelo grupo em 2004, o antigo espaço chamado Teatro Fábrica, na Rua da Consolação. Conheça essa história.


O grupo Fábrica São Paulo surge em 1983, com uma dramaturgia focada na percepção de como o espaço repercute no espectador, na representação, nas relações humanas. Nosso projeto objetivava ocupar fábricas existentes na zona leste de São Paulo. Esse desejo deu nome ao grupo, e o ator foi retirado do palco para ocupar construções arquitetônicas. Líamos Artaud, Rimbaud, Malarmé e muito Baudelaire. Adaptações de obras surgiam da noite para o dia, algumas avançavam até a escaleta como Estadia no Inferno, de Rimbaud, e Balada da Louca, de Cruz e Souza. Outras tiveram a dramaturgia concluída, projetos finalizados, mas não estrearam, como ocorreu com Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, criado para ocupar o Tendal da Lapa em 1992.

Estudo para Os Cantos de Maldoror, no Tendal da Lapa


Em Preto e Branco, 1986, espetáculo criado a partir de poemas de Tuponi Costa, amigo que não pertencia ao grupo, não por nossa vontade, mas porque se recusava a fazer parte de qualquer coisa.

Em Preto e Branco foi uma das adaptações que saíram da escaleta e estrearam. O espetáculo foi idealizado para ocupar o Teatro Martins Pena e utilizou como área cênica as áreas de serviço, camarins, escadas, foyer, palco e platéia. As cenas movimentavam o público pelo espaço físico do prédio; após circular as áreas externas, este pisava nas coxias, entrava no palco, descia para a platéia e, sentado, assistia à última cena do espetáculo realizada no palco. Nessa época, o Teatro Martins Pena era espaço de reuniões e palco da programação do Movimento Cultural da Penha.

Por seis anos, de 1986 a 1992, mantivemos um espaço de trabalho no segundo andar de um antigo cinema no bairro da Penha - antigo Cine São Geraldo - e nele realizamos nossos espetáculos e experiências. As três salas amplas e a sacada do segundo andar eram, para nós, o local onde tudo era possível.

Dentre os espetáculos desse período, Paula, baseado em textos de Antonin Artaud, com direção de Roberto Rosa, talvez tenha sido o mais significativo.
As salas, corredores, banheiros e escadas do nosso espaço/sede, reconstruíam a atmosfera vivida por Antonin Artaud no Asilo de Rodez.

Em 1990, sem recursos financeiros para continuar na linha de pesquisa inicial e, ao mesmo tempo, manter o estúdio, suspendemos temporariamente os projetos que propunham a criação de espetáculos em espaços não-convencionais para popularizarmos o trabalho e dar início à produção de um Circuito Popular de Teatro, com espetáculos em formato de arena.
Em março desse ano, abrimos o circuito com O Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, com direção de Roberto Rosa, com Sérgio Audi e Kátia Cipris no elenco. A peça foi seguida de duas outras versões: em 1991, com direção de Antônio Januzelli (Janô), e em 1993, com direção de Marcos Antunes Estival.

Macbeth, de William Shakespeare, com tradução e direção de Duda Miranda, e Em Alto Mar, de Slawomir Mrozec, com direção de Roberto Rosa e tradução de Roberto Lage, também foram espetáculos criados para o circuito que chegou a atingir 200 apresentações por ano. Nossos novos espaços de apresentação, nem tão não-convencionais, eram escolas, sindicatos, locais históricos e cidades brasileiras desprovidas de salas de espetáculos.


Os oito anos de atividades no Circuito Popular nos profissionalizaram e, em outubro de 1998, objetivando a inserção no circuito teatral de São Paulo, estreamos A Falecida, com direção de Robert McCrea, no Festival de Cantebury, Inglaterra. Em janeiro do ano seguinte, partimos para a nossa estréia paulistana em nossa primeira temporada no Centro Cultural São Paulo.


A parceria com Robert McCrea rendeu a produção de mais um espetáculo. Retomando a tradução feita por Duda Miranda para a montagem de arena de 1992, realizamos um processo de pedagogia teatral patrocinado pelo Projeto Residência Teatral da Secretaria de Estado da Cultura e estreamos novamente Macbeth, dessa vez numa montagem de palco. Participaram desse processo Dani Hu, Hélio Cícero, Madalena Bernardes, Diogo Granato e mais 30 atores estagiários.

Em 2002, a Companhia de Teatro Fábrica São Paulo é contemplada pela primeira vez pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo e, com a parceria de mais 29 empresas, recupera e incorpora ao patrimônio cultural brasileiro o edifício onde funcionou a Indústria e Comércio de Rádios INVICTUS, primeira indústria brasileira de rádios. Neste antigo galpão industrial, localizado na Rua da Consolação, inauguramos, em fevereiro de 2004, o Teatro Fábrica São Paulo. Lá produzimos nosso último espetáculo como coletivo de trabalho, Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, com direção de Roberto Rosa.

Com o advento do segundo Fomento recebido por nós em janeiro de 2005, a Companhia se dividiu em dois núcleos de pesquisa: os núcleos 1 e 2 do Teatro Fábrica. Duas linhas de pesquisa autônomas com focos de ação diferentes, mas que estão inseridas em dois momentos da trajetória de nosso grupo.
A primeira retomou a pesquisa que deu origem à companhia numa linha investigativa de constituição do ator a partir do pensamento de C.G.Jung e Gaston Bachelard, denominada “O espaço na construção da cena”; a segunda, coordenada por Sérgio Audi e Luiz Casado, deu seguimento aos espetáculos de arena construídos a partir do entendimento do pensamento de Karl Marx e do teatro de Bertolt Brecht. As pesquisas dos dois núcleos tiveram a continuidade assegurada com o recebimento do terceiro Fomento, em janeiro de 2006.

ESVAZIANDO A SEDE – A saída da Cia. Fábrica São Paulo do espaço na Rua da Consolação.

O amadurecimento, ocorrido paralelamente, dos núcleos artísticos do Teatro Fábrica levou, no entanto, à ruptura de uma proposta coletiva inicial e à divergência de opiniões quanto ao modo de gerir um espaço compartilhado: percebemos, então, que os ideais que nos levaram a construir aquele espaço de pesquisa deixaram de existir. Tomamos, assim, a decisão de nos retirar do teatro. Hoje, atuamos de forma independente e totalmente desvinculada dos projetos oriundos do antigo Teatro Fábrica.